Cadê os meus sonhos?

O Emicida diz numa música “você é o único representante do seu sonho na face da Terra. Se isso não fizer você correr, chapa, eu não sei o que vai”. Tem vezes que ouço esses versos e nem me abalo. Mas tem hora que numa playlist qualquer, num random qualquer, assim de surpresa, eu ouço “Levanta e anda” e os versos afiados do Emicida me rasgam inteirinha. Colam na minha cabeça e começam a me atormentar.

Fico acabada. Meu peito até parece tauba de tiro ao álvaro. E aí, Marcela, o que vai fazer você correr?

Eu. Não. Sei.

Cheguei aos 27 anos e 7 meses almejando ter dinheiro suficiente para atravessar o mês. Na atual conjuntura, isso já é querer muito. Que triste é ter que se contentar com pouco…

Aliás, num cenário catastrófico, em um país devastado pela corrupção e suas consequências; com o fundamentalismo religioso galopante; num mundo em crise e com sérias ameaças de bomba nuclear; numa realidade em que alguns acreditam que a Terra é plana e acham que vacinar crianças é errado… Dá para entender porque os sonhadores estão em baixa.

Atualmente, não consigo enxergar um norte bem definido para caminhar até ele sem muitos desvios. Não pretendo ganhar o Prêmio Nobel. Não ligo para medalhas de ouro. Aliás, a prata sempre me encantou bem mais. Não quero ir ao ‘Shark tank’ oferecer um milhão por metade da minha ideia que nem existe. Também não enche meus olhos ser uma digital influencer jabazeira com centenas de milhares de fãs e muitos puxa-sacos.

Gosto de conversar com quem tem objetivos concretos. Num primeiro momento, fico até um pouco inspirada, mas algumas horas depois volto ao meu marasmo onírico. Pés no chão e quase nada na cabeça para prospectar um futuro de glórias ou uma consciência bem resolvida.

A Marcela de dez, doze anos atrás, cheia de sonhos e tão crente de que tudo aconteceria num piscar de olhos, morreria de vergonha da Marcela de agora. Desculpa, Marcela de 2007. Não sei se tudo isso que eu sinto faz parte do processo de amadurecimento – afinal, nem todo mundo nasceu pra ser foda – ou se realmente estou mergulhada na crise existencial que assola qualquer possibilidade de otimismo.

Sei que posso voltar a sonhar, mas ainda preciso descobrir um caminho que me faça chegar até lá. Se alguém tiver um mapa, agradeço. Por enquanto, é só um dia após o outro.



Marcela Capobianco

Marcela é jornalista e atriz. Gostaria de ter vivido os anos 60 e 70 mas muda de ideia rapidamente quando lembra que não existiam WhatsApp nem Instagram. Tagarela, boa de papo e de copo, certa de que qualquer fato corriqueiro pode se transformar num texto saboroso. Marcela escreve às quintas.


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