De mudança

Tem certas coisas das quais a gente foge, foge, mas elas acabam vindo atrás da gente e, num rompante, varrem tudo. No meu caso, foi uma mudança. Física. De apartamento. A primeira da vida. 

Bem, não é que eu fugisse dela. Minha busca por um apartamento menor – já que passo a maior parte do tempo morando sozinha – começou em janeiro. Terminou agora, há poucas semanas, depois de mais de 40 visitas a apartamentos de todos os tipos – alguns do tipo assustador – no Rio de Janeiro. 

Só que ninguém me preparou para uma cena em especial. A cena do meu apartamento da vida inteira completamente vazio. Por mais que eu pensasse nisso há algum tempo, não tinha muita certeza de que como iria reagir. 

Fazer mudança é uma prova de resistência física depois de um redemoinho psicológico. Imagina uma família esvaziando um apartamento cheio de armários que guardavam cacarecos e relíquias há quase 26 anos. Minha mãe achou a ultrassonografia de quando eu ainda estava na barriga. Meu pai encontrou bilhetinhos fofos que um dia escrevi com letras garrafais. Eu reencontrei cadernos da escola cheios de anotações fofas dos meus amigos, roupas de Barbie surradas, provas – ok, guardei só as poucas notas 10 –, lembrancinhas de viagem que nunca encontraram um dono…

Quando a mudança finalmente acontece, o pragmatismo assume as rédeas. A gente jogou muita coisa fora, sem dó. Já no apartamento novo, eu desempacotei cada caixa querendo que aquilo acabasse logo. A arrumação não ficou das melhores, mas ficou minimamente apresentável. 

Aí precisei voltar ao apartamento antigo, para buscar umas coisinhas esquecidas.  E então, veio o baque. Tentei acender a luz, mas já não tinha interruptor. As lágrimas saltaram instantaneamente. Com a lanterna do celular fui enxergando cada pedacinho de parede e de taco do lugar que me viu crescer. 

Foi impossível evitar o clichê e não relembrar momentos que vivi ali. Até de patinete eu andava pelo corredor e pela sala. Mil festinhas que vararam a madrugada – vizinhos nunca reclamaram. Brincadeiras. Namoros. Brigas. Barracos. Tudo lá. Agora, memória.

Já não tinha mais nada meu ali. Recolhi as coisinhas esquecidas e não quis demorar muito. Afinal, a minha vida já estava no outro apartamento. As lágrimas secaram. E eu entendi que um teto, seja qual for, só faz sentido se reunir o que transborde amor. Pessoas. Livros. Bilhetinhos. Fotos… No fim, é só isso que fica. O lugar não importa, não.



Marcela Capobianco

Marcela é jornalista e atriz. Gostaria de ter vivido os anos 60 e 70 mas muda de ideia rapidamente quando lembra que não existiam WhatsApp nem Instagram. Tagarela, boa de papo e de copo, certa de que qualquer fato corriqueiro pode se transformar num texto saboroso. Marcela escreve às quintas.


'De mudança' tem 1 comentário

  1. 22 de setembro de 2017 @ 15:43 Marcia Flores Queima

    A mudança mexeu comigo.
    Mudei algumas vezes por motivos diversos.
    Vc traduziu bem o que se sente.
    Muito bom!!!!
    Bj

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