Vai passar

Eu sou péssima para dar conselho. Coitados dos poucos amigos que ainda me procuram, choram dores e me pedem uma luz. Eu até tento, mas sempre sinto que caio em todos os clichês. Talvez seja uma defesa, porque sei que eles não vão seguir conselho nenhum, só querem mesmo desabafar e depois vão agir de acordo com as próprias decisões. Então eu tento, pelo menos, ser um ouvido atento.

Quando o silêncio toma conta e percebo que finalmente tenho que dizer algo àquela alma desesperada, recorro quase que instintivamente ao conselho dos conselhos. O clichê da sabedoria popular. A expressão usada tanto por Chico Buarque para espezinhar a ditadura e clamar por tempos de democracia quanto por Aluisio Machado para esquecer um amor… Vai passar.

Isso mesmo. Vai passar. Esse aperto no peito que você sente. Essa maré de azar que tem te dominado. Essa paixão inebriante que quase te cega. Esse desespero. Esses dias em que tudo parece dar certo, meio inexplicavelmente. Essa dor. Esses dias lindos de sol sem uma nuvem no céu. Ou mesmo essa chuva que não para de cair.

Às vezes a gente se esquece, mas o bom e o ruim só existem pra se complementar. Coitado de quem não leva uma vida de sobressaltos. No fim das contas, não vai conseguir diferenciar uma tempestade de uma chuvinha fina, daquelas necessárias para molhar as plantinhas do jardim.

Eu sou afeita a um draminha, mas também sei pôr os pés no chão. Alguns amigos me acham um pouco pessimista, mas eu me considero apenas realista. Enfim… Tenho passado por momentos de ruptura, que nem sempre me confortam… Me obrigam a olhar tudo por novos ângulos. E várias vezes me pego pensando “Vai passar”.

Outro dia, meio encalacrada em pensamentos antes de dormir, fiz o caminho contrário. Comecei a lembrar de dramas do passado, desesperos que me faziam rasgar o peito, ansiedades que só saíam do meu peito com três chopes… Bem, eles passaram. Deram lugar a outros desesperos, é claro, mas hoje parecem bem menores. Eu ri de mim.

No fim das contas, o conselho é “Calma, sempre pode piorar!”. Pessimista? Realista? Sei lá, mas vai passar. Depois me conta.



Marcela Capobianco

Marcela é jornalista e atriz. Gostaria de ter vivido os anos 60 e 70 mas muda de ideia rapidamente quando lembra que não existiam WhatsApp nem Instagram. Tagarela, boa de papo e de copo, certa de que qualquer fato corriqueiro pode se transformar num texto saboroso. Marcela escreve às quintas.


'Vai passar' tem 1 comentário

  1. 22 de setembro de 2017 @ 15:47 Marcia Flores Queima

    Vai passar é a saída,amei!

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