Uma crônica de metrô

Tenho um longo caminho subterrâneo até a Barra da Tijuca. Em outros tempos, essa frase só se encaixaria num contexto de deboche. Mas o metrô até a Barra é uma realidade. Obrigada, Dudu Paes! Os reclamões vão dizer “Ah, mas o Jardim Oceânico é bem no comecinho…”. Mas é 75% de caminho andado, eles terão de concordar.

Consegui sentar. O 3G não pega. Esqueci o fone de ouvido. Deletei os joguinhos porque o celular estava sem espaço. Logo, estou entendiada na minhoca de metal. Começo a digitar essas linhas no bloco de notas. É sexta à noite. Chove. Faz frio. As pessoas parecem desinteressantes e cansadas. Nenhuma delas me chama a atenção para escrever.

Paro por alguns minutos porque chegamos à estação Cantagalo, a única em que a internet do celular funciona. Nunca entendi o porquê. Descobri por acaso, num dia em que estava na plataforma. Desde então, gosto de tirar o celular do modo avião quando passo pela Cantagalo. Entre o abrir e fechar das portas do vagão consigo responder umas mensagens, checar o e-mail, rolar o Instagram e verificar a mesmice do Facebook. O metrô segue caminho e estou de volta à vida sem internet.

Chegamos à Linha 4. Passou rápido. Não são nem oito da noite e o que não faltam são bancos vazios. Esse metrô para a Barra definitivamente não caiu no gosto dos cariocas. Também, né… A passagem custa R$ 4,30!!

A senhora que está sentada ao meu lado direito não para de olhar para mim. Será que ela bisbilhota esse embrião de crônica? Será que os óculos de grossas lentes que ela ostenta servem para perto e longe? Será que agora ela sabe que estou escrevendo sobre ela? Se sim, olha, a senhora entrou na crônica da cronista anônima do metrô! Isso não é nenhum prêmio, eu sei, mas pode ser algo para contar para os netos durante o almoço de domingo, que tal? Se quiser fazer propaganda do blog, fica à vontade. É Cena Seguinte o nome dele. Existe há 8 anos, já teve uns dois ou três virais, mas tá longe de ser o meu ganha-pão. Bem que eu queria…

Vixe! A senhora pegou no sono! Puro delírio meu achando que ela estava lendo o texto sobre meus ombros… Agora chegamos a São Conrado. Ela acorda sobressaltada, levanta e sai dois segundos antes da porta se fechar. Poxa… Nem vai poder fazer propaganda do blog. De qualquer forma, está aqui. Virou personagem. Anônima, assim como eu. Talvez a gente se esbarre qualquer dia desses na Linha 4, aí eu conto para ela. Mas o mais provável é que ela nunca saiba. Fica entre mim e vocês, leitores.

Chegamos à Barra. A voz do metrô não diz mais “Sorria, você chegou à Barra da Tijuca de metrô”. Eu gostava… Era cafona, mas eu gostava. A viagem durou meia hora certinho. Dádiva. Na chegada à rua, um moço sentado no chão me pergunta se eu gosto de poesia. Não, moço, obrigada, eu sou mais da prosa. Assim, de metrô, descompromissada e fugaz, que se escreve em trinta minutos, lê-se em menos de cinco e que, lá no fundinho da alma, provoca uma sensação de eternidade.



Marcela Capobianco

Marcela é jornalista e atriz. Gostaria de ter vivido os anos 60 e 70 mas muda de ideia rapidamente quando lembra que não existiam WhatsApp nem Instagram. Tagarela, boa de papo e de copo, certa de que qualquer fato corriqueiro pode se transformar num texto saboroso. Marcela escreve às quintas.


'Uma crônica de metrô' tem 3 comentários

  1. 27 de agosto de 2017 @ 09:21 renata buffa souza pinto

    Marcelinha, só digo duas coisas : saudades do Rio!!!! Amei seu texto!!!! Sempre que tenho um tempinho e consigo ler seus textos, me faz bem à alma!!! Rê. Bjão.

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  2. 22 de setembro de 2017 @ 16:11 Marcia Flores Queima

    Essa viagem foi rápida,mas produtiva.
    O anonimato rendeu frutos bons,só você,muito bom!
    Bj

    Responder


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