Escolhas e consequências: uma neurose

Um tempo atrás escutei uma pessoa de quem gosto muito dizendo “Fulana de Tal não é feliz porque todas as escolhas que fez na vida foram equivocadas”. Isso nunca saiu da minha cabeça. Acho que eu nem entendi direito naquele primeiro momento. Aliás, achei injusto. Nós somos, sim, responsáveis pelas nossas escolhas, mas não podemos nos responsabilizar pelos frutos que elas vão gerar mais tarde… Será mesmo?

Fui vivendo, fazendo escolhas, acertando, errando, mas sem esquecer daquela frase. O tempo foi me trazendo algumas respostas e vários questionamentos. Na época em que ouvi a tal frase, eu acreditava plenamente na filosofia Zeca Pagodinho, “deixa a vida me levar, vida leva eu”… Eu achava que era só existir, ser uma boa pessoa, não desejar mal a ninguém, ter talento e força de vontade, correr atrás (mas não tanto), fazer uma faculdade, arranjar um estágio, começar a trabalhar, ganhar dinheiro, conhecer alguém, me apaixonar, casar, ter filhos. Como nas mais açucaradas propagandas de margarina.

Até que cheguei a um ponto da vida em que comecei a questionar tudo. O contexto em que vivo hoje é de mudança, em todos os aspectos. E, claro, essas mudanças são reflexos de escolhas que eu e as pessoas que estão ao meu redor fizemos durante a caminhada. Nem todas essas mudanças me agradam. E olha que eu gosto de desafios e de novas experiências… Mas às vezes paro para refletir e, principalmente quando estou com raiva, chego à conclusão de que fiz péssimas opções.

Por exemplo, cursar jornalismo bem no auge da crise da profissão. Ninguém me avisou… Na época do vestibular diziam que era difícil, mas qual carreira é fácil? E assim fui levando… Não preciso entrar em detalhes e também não vou criticar a supremacia da internet nessa função. O domínio do digital foi um processo natural, o jornalismo no mundo inteiro sofreu os efeitos e até agora não consegue criar estratégias de longo prazo que façam o mercado se sustentar.

Bem, voltando a mim, a cada dia me convenço de que a minha escolha de carreira foi equivocada. Não tenho mágoas. Vivi e vivo experiências legais a partir do jornalismo, mas a todo momento pareço receber uma mensagem dos céus – ou do meu próprio cérebro – dizendo “É cilada, Bino”. No entanto, não me vejo fazendo outra coisa. Que dirá outra faculdade. Ainda não estou disposta a voltar à estaca zero e, enquanto isso, vou abrindo o leque, costurando por aqui e por ali para me manter viva. O tempo vai me dizer se essa escolha profissional foi acertada ou não.

Escolhas têm começo, meio e – talvez – fim. Também têm consequências, puxam outras escolhas e escrevem novos capítulos. Hoje consigo entender que a filosofia Zeca Pagodinho só funciona para poucos. Talento não é tudo. Inteligência não é tudo. O esforço move montanhas. Relações interpessoais contam muito. Ter auto-estima e saber se vender, então… Meio caminho andado. Estar no lugar certo na hora certa é quase um milagre, mas é fundamental. Paradoxo? Pois é, ninguém disse que seria fácil.

E isso serve para todas as esferas. Trabalho, amor, amizade… Aos poucos vou percebendo que, se quero muito alguma coisa, não basta existir, ir levando, a favor do vento. Tem que batalhar, colocar a mão na massa mesmo, e fazer escolhas com o maior grau de consciência possível. Posso, dessa forma, afastar possíveis frustrações? Ainda não sei, mas comecei a buscar as respostas para as minhas dúvidas sem deixar que a direção do vento e a força da maré interfiram completamente.



Marcela Capobianco

Marcela é jornalista e atriz. Gostaria de ter vivido os anos 60 e 70 mas muda de ideia rapidamente quando lembra que não existiam WhatsApp nem Instagram. Tagarela, boa de papo e de copo, certa de que qualquer fato corriqueiro pode se transformar num texto saboroso. Marcela escreve às quintas.


'Escolhas e consequências: uma neurose' tem 2 comentários

  1. 17 de agosto de 2017 @ 17:26 Carlos souza Pinto

    Fico com o coração apertado e desorientado qdo leio ou mesmo escuto de vc essas ponderações, mas ainda confio que esse momento é nuvem passageira e logo logo as coisas entram nos eixos novamente. Tenho Fé e acredito no seu talento. Calma Bete. Bjs

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  2. 22 de setembro de 2017 @ 15:57 Marcia Flores Queima

    Parabéns!!!!!
    É assim mesmo as escolhas e as consequências pelo caminho afora:imprevisíveis..
    Coragem!!!Vc pode.
    Bj

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