Gratidão, não, obrigada

Sai pra lá com a sua gratidão. É um favor que você me faz. Mas não pense que eu quero me cercar de ingratos, muito pelo contrário. Quero me cercar de quem diz “obrigado, de nada”. Isso é mais do que o suficiente.

No ano passado participei de um design thinking. Um dos termos do marketing para tirar dinheiro de empresas que não vão muito bem das pernas e precisam se reinventar. Pois bem. A moça que comandou os inacabáveis encontros do tal design thinking era um pouco irritante, mas muito simpática. Eu passei o primeiro dia sem saber se tinha gostado dela ou se tinha detestado. Concluí meu julgamento quando ela proferiu a última palavra da reunião: gratidão.

Carimbei um selo imaginário na testa da moça: “insuportável”. Coitada de mim, que nos outros dois encontros tive que ouvi-la falar absurdos do tipo “na minha casa só entra comida orgânica” e “eu não deixo meus filhos assistirem a tv aberta”.

O dicionário diz que gratidão é reconhecimento. Belo sentimento, pena que foi banalizado.

Algumas palavras simplesmente entram na moda e começam a ser usadas indiscriminadamente. Sinceramente, não sei se é porque ficam bonitas nas legendas do Facebook, porque podem ser facilmente encontradas nas hashtags do Instagram ou porque são usadas pelos influenciadores ou pelas celebridades… “Gratidão” é um exemplo disso. E, claro, também as derivações tão ou mais irritantes que a palavra-mãe, como “gratiluz”, “gratitude”.

Eu não tenho estômago para ouvir um “gratiluz” direcionado a mim. Sorte que isso nunca aconteceu. Dependendo do meu humor no dia, eu poderia rir na cara da pessoa. Ou soltar logo um impropério. Ou questionar sobre a etimologia da palavra. Ou até mesmo ser franca e dizer que esse termo é cafona demais e depõe contra a pessoa. É cansativo!

Sejamos gratos, agradecidos, espalhemos amor, mas poupemos o uso de “gratidão” e seus derivados. Combinado? E vamos caprichar na criatividade para substituir as legendas lugar-comum? Vamos, sim! Conto com você e você pode contar comigo. Ai, tá vendo? Já fiquei cafona. Melhor parar por aqui. Gratid… Pera! Obrigada.



Marcela Capobianco

Marcela é jornalista e atriz. Gostaria de ter vivido os anos 60 e 70 mas muda de ideia rapidamente quando lembra que não existiam WhatsApp nem Instagram. Tagarela, boa de papo e de copo, certa de que qualquer fato corriqueiro pode se transformar num texto saboroso. Marcela escreve às quintas.


'Gratidão, não, obrigada' tem 1 comentário

  1. 22 de setembro de 2017 @ 16:05 Marcia Flores Queima

    Muito bom!!!!!!
    Bj

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