Trumpicália

*

Sobre a cabeça alguém lendo um livro aberto na metade, sobre meus pés mochilas que aterrisam pra que o vagão aperte mais gente e um sujeito ainda chega esbaforido no momento em que a porta quase lhe fecha no nariz. Eu organizo cada movimento pra conseguir pegar o celular e trocar de música, eu procuro algo que lembre o carnaval, eu subverto esse pastiche da Central e lembro de amigos achando que não existe trem lotado nesse país. Viva a moça, ela levantou e acho que vou tentar sentar. Impossível. O movimento é impedido pela massa de braços e tecidos roçando. A garrafa térmica de prata entorna. “Olha a poça.” Uma mãe entra pela porta, e no joelho uma criança grita e chora porque prende a mão. Ainda nem chegou na Bedford e na minha mão direita já circula pouco sangue, e o rapaz comunica no alto falante pra ter paciência porque tá congestionado. Mas o metrô aqui é bem moderno, mesmo os vagões suando os trapos e os ternos, entre Bushwick e a 14 é um pouquinho de inferno. Tá chegando a Union Square e sai todo mundo em cortejo. É carnaval. Viva a Bahia – e a SuperVia-ia-ia-ia-ia.

 

**

 

Eu quis jantar, mas o mercado perto de casa tem uns preços lá em cima. Chutei o balde e orçamento pro ar. Deixei pra arrumar o quarto depois. Quem sabe os roommates não querem interagir. Comprei um vinho, e uns queijos, e uns pães. Essa noite não ia gastar dinheiro e gastei. Mandei mensagem perguntando se queriam algo mais. Cheguei em casa aprontei tudo e sentei. Passei Clorox na mesinha central. Aproveitei que tá lindo esse por do sol. Abri o vinho e coloquei até jazz. Liguei as luzinhas de Natal que eles tem. Não tem três taças mas eu improvisei. Tomei o primeiro gole e eles tomaram também. Trocamos uma palavra ou outra em inglês. Na segunda taça eu já me empolguei. “Depois daqui vamos sentar em algum bar?” Mas os roommates na hora de jantar tão preocupados em comer e dormir.

 

***

 

Caminhando contra um vento da porra, o passaporte úmido no bolso e o guarda-chuva ao avesso, numa chuva que não tava prevista pra esse mês de agosto. Mas mesmo assim, eu vou. Vagueio por Manhattan, monumentos com nomes de presidentes, tímidos beijos de amor, as nuvens dissipam e eu insisto em caminhar em direção à estação mais próxima. Mas o sol nos bancos do Bryant Park me enchem instantaneamente de vida e preguiça. Eu sento um pouco e resolvo me dar essa trégua. Paro o tempo, por entre fotos e stories, sem fone e sem telefone, pra que eu siga vivendo essa cidade. Quem tá nessa praça nem sabe que eu já pensei em contar em português todas as poesias que a gente não vê na televisão. O Brasil é incomparável, mas agora que a chuva passou, o sol aqui tá tão bonito. Surgiram cantores de rua, figurinos estonteantes, figuras indizíveis. Tem poesia sim. Imigrantes, expatriados, estrangeiros ou locais. Todos vão caber na mesma estrofe. Por que não?

 



João Miller

João é diretor de arte mas está sempre com as palavras. Escreve poesias, compõe e canta. Não basta trabalhar com imagens, precisa estar sempre tomando conta delas, provocá-las em relatos e histórias. João escreve às terças.


'Trumpicália' tem 1 comentário

  1. 15 de agosto de 2017 @ 16:22 LUIZ EDUARDO TAVARES DE MACEDO

    Genial. Bota uma taça de vinho ai pra mim. Solidão? Acabo de te mandar um abraço e um beijo. Vai fundo filho, pega esse metrô ai e costure seus caminhos.

    Responder


O que você achou desse texto?

Your email address will not be published.

© 2009 Cena Seguinte