É muita exposição

Eu dividia a mesa do bar com mais quatro mulheres. Todas beirando os 60 anos. Em um determinado momento, silêncio. Todas estavam de cabeça baixa, olhando para o celular ou digitando com uma certa morosidade. Coube a mim, a jovem da mesa, repreendê-las. Uma contabilizava os likes de uma foto que havia acabado de postar. Já eram mais de vinte! Uma outra respondia whatsapps. As outras duas deviam estar vagando em vão pelas timelines do Face e do Insta, como elas mesmas chamam essas redes sociais.

Elas pousaram os celulares na mesa e voltaram a falar. A pauta não foi muito longe, elas começaram a tecer comentários sobre uma conhecida que encheu o Facebook de fotos de uma viagem. “É muita exposição”, criticou uma delas. As outras concordaram. “Nossa, é uma chatice. Ela posta o café da manhã, o almoço, o jantar, o mapa das linhas do metrô… Isso não interessa a ninguém, né?”. “E o dia em que ela fotografou quase todos os quadros de um museu?”, completou outra amiga.

Eu, que estava quieta até então, resolvi provocar. “Mas, gente… Quem posta muito nas redes sociais está se expondo ou expondo uma ideia de vida que quer vender como real?”. Elas ficaram quietas. Bugaram? Refletiram? Não sei, mas continuei falando. “Essa moça aí que fez overposting numa viagem também posta foto da pia cheia de louça para lavar? Ou do cabelo dela com três dedos de raíz branca, precisando de tintura urgente?”

Elas riram e responderam “Claro que não”. Então… É meio óbvio, mas às vezes a gente se esquece de que, mesmo com essa suposta invasão de privacidade na era da superexposição, o que aparece nas redes não é o resumo da vida de uma pessoa. A gente tende a mostrar nossas vitórias, nossos bons drinks à beira-mar, nossa corrida de 7km debaixo de sol quente, os bebês fofinhos e sorridentes, os almoços maneiros, as viagens…

Quem posta foto chorando, na bad, na fossa..? “Tem gente que coloca”, respondeu uma das minhas convivas. “Ok, mas você não me deixou concluir o raciocínio!”, prossegui. Quem expõe uma derrota faz isso milimetricamente pensado em busca de… Likes? Comentários? Chamadinhas no privado? Ou eu estou ignorando a existência das pessoas que são pura e simplesmente sem noção?

A verdade é que eu desconfio de tudo que vejo nas redes sociais. A Pugliesi não enfia o pé na jaca de vez em quando? Tudo bem que ela já deu entrevista dizendo que fez terapia para aceitar que a vida dela era maravilhosa… Mas, desculpa, querida, você não me engana. Os pobres e os ricos mortais têm dias bons e ruins na caminhada. Perfeitamente normal. Portanto, desconfio de quem é muito feliz. E de quem tá sempre reclamando. De quem parece que só vive na academia. De quem mostra que trabalha demais. E até de quem faz a linha discreta, sem muitas postagens.

Quem expõe quer mostrar. Isso é fato. E um recorte da vida não precisa ser fiel a ela. Terminei o meu discurso. Não sei se conseguir convencer as minhas amigas de sessenta e poucos. Mas acho que as fiz pensar. Mudamos de assunto, passamos por vários outros, mas não esquecemos da selfie no final. O importante é que estávamos todas sorridentes na foto e nas redes.



Marcela Capobianco

Marcela é jornalista e atriz. Gostaria de ter vivido os anos 60 e 70 mas muda de ideia rapidamente quando lembra que não existiam WhatsApp nem Instagram. Tagarela, boa de papo e de copo, certa de que qualquer fato corriqueiro pode se transformar num texto saboroso. Marcela escreve às quintas.


'É muita exposição' tem 6 comentários

  1. 3 de agosto de 2017 @ 17:30 Anônimo

    Esses dias comentava sobre isso no meu trabalho. É bem isso! Fora as pessoas que fazem das redes sociais os seus diários (postam tudo, o que comem, o que perdem e o que ganham), as outras pessoas vão postar apenas os bons momentos. Eu sou assim! Mas aí há também aquelas que criam os bons momentos, aquelas que não se gostam muito, mas postam como se fossem bests friends, etc. Também desconfio de tudo! Hahahaha

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    • Marcela Capobianco

      4 de agosto de 2017 @ 21:18 Marcela Capobianco

      Hahaha diário na rede social é beeem chato! Aliás, quem é você, anônimo? Fiquei curiosaaa!

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      • 9 de agosto de 2017 @ 15:32 Luana

        Gente, não saiu minha identificação?

        Luana, amiga do João, leitora assídua do blog, fã desses dois escritores maravilhosos! Hahahaha

        Bjs

        Responder

  2. 22 de setembro de 2017 @ 16:46 Marcia Flores Queima

    Pra variar maravilhoso e real é isso!
    Demais!!!!!
    Bj

    Responder

  3. 22 de setembro de 2017 @ 16:46 Marcia Flores Queima

    Real.
    Demais!!!!!
    Bj

    Responder


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