Carinha de gringa

Tô eu parada, esperando para atravessar a rua, cantarolando uma música qualquer, quando percebo que uma mulher de uns 30 anos me olha fixamente.

Parei de cantar. Vai que ela tava irritada com o meu cantarolar baixinho… Esse povo é doido e eu não quero confusão para o meu lado.

Ela, então, resolve tomar a palavra. “Você é brasileira?”. Eu, prendendo o riso, “Sou”. “Mas é daqui do Rio?”. “Sou!”. Para que dizer que nasci em Valença, né? Acaba dando na mesma… “Nossa, mas você tem uma cara de gringa… Tão branquinha, tão bonita…”. Eu agradeci e sorri sem graça. O sinal abriu e eu meti rodinha no pé para evitar uma possível continuação do papo.

Não foi a primeira vez que isso aconteceu. E eu detesto. Julho de 2017 e ainda tem que existir “cara de brasileira”? Pelo visto, sim.

Não ter “cara de brasileira” já me deixou em algumas enrascadas. Uma vez, viajei com sete amigos para Buenos Aires. A gente passava na rua e os camelôs gritavam “brasileiros! Ronaldo, Ronaldinho…”. Eu achava o máximo. Mas quando me desgarrava do grupo, era constantemente interpelada com um “Hello! How are you?”.

Resolvi tirar onda na feira de San Telmo e negociei a compra de uma bijuteria toda em inglês. Saí toda sorridente com a minha pulseira e por ter conseguido passar por gringa. Minha amiga logo me puxou para a realidade quando comentou que, muito provavelmente, a artesã tinha cobrado bem mais caro para quem ganhava em euro ou em dólar. Nunca mais eu quis dar uma de engraçadinha.

Às vezes, na praia, alguém vem falar comigo em inglês, aí eu capricho não só na minha língua mãe como no sotaque carioca, cheio de xis e erres. “Amigo, quanto tá duas cadeiraaaxxx?”, “Me vê um bixxxxcoito globo doce, puurrr favoooorrrrr”.

Outra vez, no Pelourinho, em Salvador, uma amiga morena quis gentilmente ir embora quando a tarde caiu porque estava com medo de me confundirem com gringa e a gente correr algum risco. E eu tava amando a batucada do pôr-do-sol.

Enfim, sei que parece um desabafo no melhor estilo “white girls problem”. E é mesmo. Mas, poxa… Me deixem viver a minha brasilidade nagô de cútis quase transparente de tão branca. Parem de fiscalizar se eu consigo mesmo rebolar até o chão dançando funk ou se eu mexo as cadeiras corretamente na Sapucaí.

O Brasil não é só verde, anil, amarelo, cor de rosa e carvão. É branco azedo também!



Marcela Capobianco

Marcela é jornalista e atriz. Gostaria de ter vivido os anos 60 e 70 mas muda de ideia rapidamente quando lembra que não existiam WhatsApp nem Instagram. Tagarela, boa de papo e de copo, certa de que qualquer fato corriqueiro pode se transformar num texto saboroso. Marcela escreve às quintas.


'Carinha de gringa' tem 2 comentários

  1. 13 de julho de 2017 @ 17:45 Carlos souza Pinto

    Você me faz feliz com seus textos e como eu gosto disso…

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  2. 14 de julho de 2017 @ 17:46 Regina Capobianco

    Muito bom! Adorei minha branquinha linda!

    Responder


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