Até amanhã

“Então até amanhã”. Foi o que disse um cara de uns 50 anos na estação Catete do metrô, ao se despedir de um outro cara, que julguei ser um colega de trabalho dele. Eu tenho mania de escutar a conversa dos outros no transporte público, mas dessa vez estava distraída, só peguei o finalzinho do papo. Me detive no “até amanhã” e mergulhei nos meus próprios pensamentos.

Esses seres humanos… Tão pretensiosos. Quem garante que aqueles dois caras vão se rever amanhã? Talvez uma das principais funções do universo, do cosmos ou de Deus – para quem acredita – seja pregar peças na gente. O insólito está em todos os cantos… E o destino também, quietinho na dele, só esperando o momento certo para nos abocanhar e nos deixar com cara de tacho.

Já parou para pensar como é corriqueiro dizer “até amanhã”? Aposto que você mandou um desses hoje. Perfeitamente normal, mas um bocadinho pretensioso, concorda? Quem disse que o cara que desceu no Catete não vai sentir um cheirinho delicioso de cachorro-quente ao subir as escadas da estação, vai se atracar com o podrão e no dia seguinte não vai conseguir levantar do trono? Se isso ou mais uma penca de coisas acontecesse, ele não poderia rever o colega no dia seguinte…

E se o colega dele, coitado, recebesse uma ligação no meio da madrugada e descobrisse que uma tia velhinha, moradora de uma cidade do interior de Minas, que nunca se casou, morreu sem deixar filhos e, a despeito dos trâmites de velório e enterro, ele ganharia uma bolada considerável, que o permitiria realizar o sonho de se mudar para Lisboa com mulher e filhos? Ele não faria questão nenhuma de rever o amigo no dia seguinte…

Pensei um pouco mais e surgiu uma dúvida. Será que o complemento “se Deus quiser” caiu em desuso? Só as avós têm falado “até amanhã, se Deus quiser”? Isso não é moda entre os evangélicos? O número de ateus cresceu nos últimos tempos? Ao que tudo indica, não.

Entendo que a gente precisa se sentir normal, ou até mesmo imperecível. Mas a cada dia me convenço de que o supostamente cotidiano só existe para desacreditar os crédulos.

O clichê assusta quando a gente para para pensar por alguns segundos. Talvez não exista o amanhã. E nem digo apenas porque a vida está sempre por um fio, num dia as pessoas estão vivas e, no outro, mortinhas da silva. Mas porque as coisas mudam. O planeta tá girando enquanto você tá aí sentado, mesmo que você não perceba.

As surpresas, boas e ruins, estão pelos ares, sempre prontas para se materializar bem na nossa frente. E não tem como fugir delas. Portanto, que tal pensar dois segundos antes de dizer um “até amanhã”? O mundo gira…



Marcela Capobianco

Marcela é jornalista e atriz. Gostaria de ter vivido os anos 60 e 70 mas muda de ideia rapidamente quando lembra que não existiam WhatsApp nem Instagram. Tagarela, boa de papo e de copo, certa de que qualquer fato corriqueiro pode se transformar num texto saboroso. Marcela escreve às quintas.


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