O recém expatriado

O recém expatriado mal desce do avião e já entra na fila de quem tem visto de turista. Força do hábito. Liga o Google Maps pra acreditar que está onde está. Acredita mas demora a processar que não está ali a passeio. O recém expatriado vê o Empire State de longe e evita tirar foto para não parecer tão visitante. Ele precisa tornar isso tão comum como levar um bagel to go e comer na mesa do trabalho. Ou mesmo evitar eye contact com os pedestres. Percebe que tem que andar correndo como eles, fones nos ouvidos mesmo não ouvindo nada. O recém expatriado pega o metrô errado mas finge estar tudo bem. Jamais admite confundir uptown com downtown quando se trata de metrô. East side e west side, moleza. E se um rato passa por perto na estação, normal.

O recém expatriado finge entender as piadas de seus colegas de trabalho locais. E pra se comunicar se utiliza do kit fundamental de palavras de um recém expatriado. “Yeah”, “sure”, “nice”, “cool” – mesmo quando perguntam como se fala seu nome. O recém expatriado sua na têmpora quando não entende o que seu chefe fala. Ele também se esforça para dar pitacos em reuniões e brainstorms. “If …had…boat…not…car?” O recém expatriado duvida da sua capacidade de se comunicar. Mas quando bebe usa gírias.

O recém expatriado não lava roupa, faz laundry. Não ganha quilos, ganha pounds. Não sabe se já engordou ou as roupas é que encolheram nas secagens. Ou os dois. Precisa aprender de uma vez a falar em Fahrenheit. O recém expatriado finge que entende a diferença entre dime, penny e cent. Demora pra contar moeda. Não saber quanto dar de tip. Demora pra escolher o prato. Ou escolhe qualquer coisa só pra não demorar. Paga café com nota de cem porque ainda não tem conta no banco. O recém expatriado também quer ser local. Abotoa a camisa até o fim mesmo no calor. Bebe café com gelo. Evita a quinta avenida, aff. Rockefeller Center, Times Square, Broadway. Mas quando passa por perto tira mil fotos.

O recém expatriado cantarola Frank Sinatra pela rua, mas quando chega em casa coloca Novos Baianos. Vai pra farmácia de havaianas enquanto ainda é verão. Faz brigadeiro e caipirinha para os locais. Não sabia que era capaz de tanto até ser expatriado. O recém expatriado sabe que não vai ser fácil. Mas às vezes ele é pego de surpresa por uma euforia que nunca tinha sentido antes. É a primeira vez que a saudade não dói. Ou ainda não doeu – mas ela está por perto sempre. O recém expatriado sabe que o mais difícil é ir. Porque no final a graça de expatriar-se é procurar a si mesmo. Pra quem sabe um dia finalmente se encontrar na volta.



João Miller

João é diretor de arte mas está sempre com as palavras. Escreve poesias, compõe e canta. Não basta trabalhar com imagens, precisa estar sempre tomando conta delas, provocá-las em relatos e histórias. João escreve às terças.


'O recém expatriado' tem 2 comentários

  1. 5 de julho de 2017 @ 14:19 Luana

    Joãooooooo, senti aqui todas as suas vivências e sofri junto neste texto. Me angustiei e me arrepiei. Que aventura! Sensacional! Toda a sorte do mundo pra você, querido.

    Responder

    • João Miller

      5 de julho de 2017 @ 22:35 João Miller

      Obrigado, Luana!! Fico muito feliz que lê meus textos 🙂 Beijo grande

      Responder


O que você achou desse texto?

Your email address will not be published.

© 2009 Cena Seguinte